Academia de Pintura
Alguém concordará comigo na questão de que é necessária uma Academia de Pintura, onde os alunos ingressem com a certeza de que serão munidos dos meios técnicos essenciais para se tornarem artistas?
Ao contrário de deixar os principiantes descobrirem pequenos vícios e truques que tentarão empolar até à escala de talentos, como quem aranca um velho papel de parede e lhe chama “Arte”, não se deveria facultar a todos aqueles que verdadeiramente querem aprender a pintar ou desenhar, a maneira de o conseguir fazer com qualidade? Sem abordar o assunto da formação estética do “gosto”, que também é um ponto fundamental, parece-me que as meras questões técnicas que a “arte actual” odeia como pecados mortais, seriam bastantes para fundar toda uma nova escola. É, para mim, um insulto aos talentos que são potenciais pintores, obrigá-los a morrer à fome, negando-lhes a técnica que lhes permitiria crescer, ou, como também se faz em abundância, convencê-los de que as pequenas brincadeiras e originalidades que desajeitadamente se trazem da infância podem ser “pérolas de arte”, livres da contaminação esterilizadora da aprendizagem académica. Todos sabemos que nas nossas escolas de artes o saber dos docentes é insuficiente e que os alunos que os abordam com pesquisas profundas não encontram o apoio de que necessitam. Tenho conversado com alguns, cheios de talento e vontade, ansiosos por que se lhes permita desenvolver as suas extraordinárias capacidades. Muitos dos nosso velhos professores de outrora foram empurrados para a reforma. Outros fugiram para a reforma por não suportarem mais a degradação académica a que o ensino chegou. Com eles desapareceu a verdadeira ajuda que tivemos. Ora nós sabemos bem que esta nova camada de vanguardistas não faz mais que múltiplas vénias à massificação capitalista que alastrou sobre a Europa desde que os EUA roubaram a vitória da 2ª Guerra aos Britânicos. É apenas a lei do capital e da cotação que rege os novos panteões da pintura internacional, e o nosso ridículo país não faz mais que ratificar tudo o que é despejado pela crítica internacional vendida e pedante, já que basta ser publicitado para ser cotado. Que cada um tenha a sua opinião e escolha a sua pintura, está certíssimo; que não se consiga proporcionar aos aspirantes a artistas os meios absolutamente essenciais para o seu futuro é um crime que apenas enterra mais fundo na pobreza o nosso país. Sendo tão pequenos, e insignificantes se formos destacados do Grande Brasil, podíamos, ao menos, arriscar ser diferentes, estilhaçar a montra de vaidades grotesca que todos sabem já ter passado de moda. Talvez assim alguma coisa acertada pudesse emergir deste pântano. Não encontrei, até hoje, alguém que me dissesse que é admissível que um pianista não tenha a sua obrigatória formação académica. Ninguém sobe a um palco e toca um instrumento sem anos sobre anos de prática e técnica. Porque é que nos deixámos prostituir nas Belas-Artes? A famosa e rica Guggenheim fartou-se de gozar com a Pintura e com os seus pobres amigos pintores. Nunca deve ter pensado, porém, que as suas brincadeiras iriam acabar com tantos séculos de civilização, para permitir que o lixo fosse promovido a luxo. Ah, já me esquecia… parece que foram os EUA que ganharam a guerra
September 10th, 2008 at 4:06 pm
His work is so inspiring. Very provacative. Always want to see more.
Bruce
September 10th, 2008 at 9:16 pm
Gosto do “mau feitio”.
Obrigada, por apontares o dedo à Gulbenkian.
September 24th, 2008 at 6:14 pm
good site lwniyz
September 24th, 2008 at 11:51 pm
Bem nao podia concordar mais consigo, com a maior das infelicidades.
Cumprimentos,
Joni H.D.
March 2nd, 2009 at 12:38 pm
Sou uma grande apreciadora do seu trabalho e concordo plenamente com o seu texto. Pinto a óleo e apesar de já ter alguma obra feita como estive muito tempo parada decidi frequentar um curso para renovar os meus conhecimentos, relembrar algumas técnicas já esquecidas e estar com outras pessoas partilhando experiências em vez de me concentrar apenas no meu trabalho, sozinha, no meu pequeno atelier.
O que acontece é que gosto muito, são todos muito simpáticos, o professor é impecável mas sou constantemente barrada por ser demasiado perfeccionista, por não conseguir ir pelo caminho do abstracto, por tentar desenhar com rigor e creio que é exactamente esse rigor e essa técnica aprimorada que um artista necessita para depois seguir o seu caminho que pode até ser o abstraccionismo ou outra corrente contemporânea. Tem de haver uma base clássica para que depois possamos voar para onde quisermos.
March 4th, 2009 at 2:38 pm
Fantástico! Disseste de uma forma nua e crua aquilo que eu penso mas não tinha coragem de dizer. De facto é necessário uma Academia de Pintura onde os alunos que querem aprofundar os seu conhecimentos e as suas técnicas não sejam profundamente frustrados com ausência de seriedade no assunto. Quando entrei na Faculdade de Belas Artes ia cheia de espectativas. Ingenuamente pensava que ia aprofundar a pouca ténica de pintura a óleo que possuia e que iria ter acesso a novas técnicas. Apesar das ajudas que tive no desvendamento de alguns “truques” na pintura a óleo (como se fosse algo muito oculto e só permitido revelar a alguns iluminados verdadeiramente interessados) senti uma enorme frustração ao aperceber-me que as técnicas não eram dadas de uma forma curricular onde todos tivessemos acesso para depois escolhermos o nosso caminho. Na verdade, assisti a alguns colegas a optarem por determinada maneira de fazer porque não tinham como saber fazer de outra maneira. Cheguei a ouvir um aluno de 5ºano a perguntar-me que liquidos “estranhos” eram aqueles que eu misturava com as cores. É lamentavel que um aluno passe 5 anos numa Faculdade de Artes e não conheça todas as técnicas envolvidas. E dai o estado da nossa arte. Nada começa a partir do nada. Não podemos renegar tudo o que foi conquistado com séculos de pintura e vêr só o que foi feito práticamente no último século, sob pena de estagnarmos e não evoluirmos.
Devido a tudo isto também não temos maneira de aprofundar de uma maneira séria, pós-faculdade, alguma técnica escolhida (no meu caso pintura a óleo). E as nossas instituições também não facilitam outro tipo de aprofundamento. A titulo de exemplo, estive a estudar os Painéis de S.Vicente, e deparei-me com a ausência de um livro com boas reproduções dos Painéis. Aliás, existe um mas que não está à venda porque o Museu Nacional de Arte Antiga não fez uma nova edição do livro sobre o quadro com mais importância no seu museu. Isto é um reflexo da importância que damos ao nosso património. Portanto, para estudar os paineis sem ser a ver o quadro, só pude tirar fotografias do livro que se encontra na biblioteca do museu. Disseram-me que poderia ter acesso a fotografias do arquivo, mas passado mais de um ano ainda não recebi resposta.
Por tudo isto, dou-te os parabéns por conseguires manter-te fiel à tua pintura e conseguires estar sempre a evoluir e a surpreender-me, porque a maior parte da arte “dita” vanguardista já não o consegue - tornou-se académica de uma forma negativa.
Estou ansiosa para ver a tua exposição esta noite. Mas dou-te já os meus parabéns antecipados porque tenho a certeza que os mereces.