Pintura
ARTE E EROS
O Belo ? eterno. Resiste ao tempo, ? passagem inef?vel da vida e da morte. Resiste-lhe atrav?s da Arte que, pelo c?none grego cl?ssico permitiu que o Homem se transcendesse, se tornasse mais humano ao mesmo tempo que aproximava os seus limites dos Deuses.
A Arte n?o desliga o Homem da sua natureza, nem da Natura; apenas o deixa viv?-las, senti-las, reflectir sobre elas e ao faz?-lo, idealiz?-las, tornando-as perenes, e projectar-se e olhar-se, tornando-se ideal. Ela ? simultaneamente Mnem?sine e Letes.
E ? por ser essa idealiza??o que a Arte assume uma dimens?o religiosa e er?tica. Ela ?religa? o Homem com a sua natureza, com a sua realidade, com a sua vida, enquanto paradigmas, e permite-lhe representar-se, definir-se e querer-se belo. E por ser ideal, o Belo ? desej?vel, e logo indissoci?vel da sensualidade, da cupidez e da vol?pia, e divino porque sobre-humano.
Ora, se tudo isto parece ?bvio, e at? banal, no contexto da arte greco-romana e do seu antigo pante?o, (e as palavras, elas mesmas, traem a sua origem pag?), se muita da Arte ocidental posterior ? cristianiza??o configura uma continuada, e certamente consciente, sagra??o da sensualidade e do erotismo enquanto caracter?sticas do Belo, n?o ? menos verdade que s?culos de discurso religioso crist?o as remeteram para o dom?nio do profano.
Talvez seja essa a raiz da profana??o do Belo, em si, por grande parte da Arte contempor?nea e a sua consequente desvincula??o de qualquer religiosidade no sentido acima referido.
A nova exposi??o de Barahona Possollo ? espantosa pela sua inova??o conceptual. N?o que ela crie rupturas com o trabalho anterior do pintor, mas porque o vasto e exigent?ssimo ciclo de trabalhos agora expostos, nos d? a chave para uma leitura de toda a sua obra at? aqui.
A sua profunda reflex?o sobre o Tempo que tudo desfaz e oculta, eras, esp?cies, civiliza??es, os pr?prios deuses, para depois tudo desvendar envolto em mist?rio, remexido, redimensionado, triturado pela sua grande m?, revela-nos, afinal, um jogo de esconde-esconde com o ser humano.
S? que esse jogo infinito de enigmas e sinais tem regras antigas que se perdem, elas pr?prias, no decurso do tempo e que devem ser retomadas pela leitura sistem?tica do jogo anterior. Essa leitura, segundo Barahona Possollo, pode-se fazer pela Arte. A chave vai-nos sendo dada pelos seus quadros, conforme o pr?prio pintor vai avan?ando na decifra??o de c?digos, e permite-nos, aqui, reclamar o c?none dos antigos.
Relembremo-lo, pois, nas suas telas. Na Arte, na Arte de todos os tempos, na cria??o do Belo, o Homem demora-se na Vida. Representa-se, idealiza-se, liga-se ao divino.
Recria a Natura, sacralizando-a: dan?a com ela, deleita-se nela, inebria-se e liberta-se, e j? ? um outro: um pastor dos Deuses. Move-se de acordo com puls?es, sofre ou goza de paix?o, cria lendas e mitos, explica-se e volta a explicar-se; perde-se entre Deuses; encontra outros, verdades eternas; combate, martiriza-se, mata, morre.
Mas em todos os casos, desde que um dia se viu mais que humano, desde que um dia se corrigiu e se idealizou, passou sempre a suplantar-se atrav?s da Arte e do Belo e assim, ritualmente, a ligar-se ao divino.
Contar? sempre com a for?a dos sentidos, com a paix?o sensual. Ela s?, a vol?vel, caprichosa, energia de Eros, o impele. Ela estar? sempre com ele na mem?ria, na contempla??o e no sonho do Belo. Ela o far? mover-se, criar, desejar.
Mas as for?as, os conceitos que, por proximidade cultural designamos com os nomes herdados da Gr?cia e de Roma, est?o para Barahona Possollo presentes noutros contextos, noutras linguagens, noutras culturas. S?o as for?as do humano, s?o as for?as da Natureza, recriadas nessa senda do sagrado, repensadas na busca do eterno.
O que estes seus quadros nos dizem ? que entre a imensid?o do tempo primordial, de que t?o poucas marcas temos, e a eternidade, cujos sinais avidamente buscamos, existe uma for?a que sempre se renova, que sempre se destr?i, v? mas perene, impulsionada pela vida e pela morte.
Essa for?a ? material. ? feita de carne e de pele, de cabelos e ossos, de polpas e folhas e p?talas. E ? espiritual, feita de olhares e gestos e movimentos inef?veis e sensa??es e ideias suspensas na luz e nas trevas.
E essa for?a material e espiritual, Barahona Possollo exprime-a na Pintura de uma forma ?nica, inovadora no panorama do s?culo XXI e tecnicamente brilhante, que ? uma pedrada no charco da Arte contempor?nea.
Pedro Arouce
Lisboa, 2006