Pintura

“É um pintor hiper-realista, não é…” comentam muitas vezes em face do meu trabalho. Compreendo que o público procure, num esforço racionalista, enquadrar a pintura que produzo em categorias pré-determinadas. Tenho, entre a variedade de abordagens, tido a felicidade de encontrar opiniões esclarecidas e positivas que contribuem verdadeiramente para a minha evolução. Muitas vezes, porém, me rotulam de “académico”, “anacrónico” ou “hiper-realista”. Estes vocábulos não tem para mim a carga negativa que vulgarmente lhes pretenderam dar, contudo há que esclarecer alguns princípios estéticos relacionados com o tipo de figuração que persigo já que, normalmente, a crítica assustada confunde as grandezas em questão.

No princípio está apenas a vontade de dar corpo a uma ideia. Torná-la visual. Isto é comum a todos aqueles que se dedicam ás artes plásticas. A forma de o fazer assume então o papel decisivo na diferenciação das formas estéticas, permitindo a infinita variedade a que nos habituamos. A minha escolha desta forma figurativa de representação é apenas mais uma no panorama versátil da produção deste século que chega ao fim. A “Modernidade” culminou numa fragmentação de tendências que, podendo conter alguma angústia, deve ser encarada como algo que permite uma enorme riqueza estética. Não pretendamos, pois, perder essa liberdade conquistada cedendo a ditaduras de escola ou moda, tão frequente na atitude comum de dirigismo mediático patente nos nossos dias. Não devemos incorrer nos totalitarismos da razão analítica a que diariamente assistimos. A “Modernidade” defensora do progresso linear eliminou progressivamente modos de reflexão sobre grandezas humanas eternas, banindo quase completamente certas formas de expressão. Neste âmbito o Modernismo, do qual persistem as vanguardas que perseguem um conceito de novidade sempre fugaz, privilegiou a expressão abstracta e a redução da contingência formal do real, instituindo estes seus valores como novos dogmas académicos. Ao abater os ídolos de um academismo oitocentista ergueu novos tabus, incorrendo no mesmo erro contra o qual protestava. Não existe actualmente uma verdadeira liberdade de expressão no campo artístico, embora se classifique o nosso tempo de “liberal”…

A explicação da minha forma pictórica é simples. Pode até parecer uma forma ingénua de traçar uma metafísica… Acredito que a realidade, o mundo que nos rodeia, seja dotado de um carácter múltiplo, que não se pode resumir a uma equação ou um rótulo. A dualidade matéria-espírito está presente em tudo o que observamos. Os seres vivos ou inanimados que conhecemos adquirem, por isso, uma dimensão simbólica, participam de dois universos em simultâneo. Os elementos deste mundo físico são o léxico e as suas relações a gramática para a expressão que procuro atingir. A contingência formal dos seres encerra em si uma ligação indissolúvel ao universo espiritual. Não podemos esquecer a obrigatoriedade material sob pena de desenraizarmos as ideias. Abstractizações perigosas de elementos simbólicos levaram sempre, ate no nosso século, a dramas e holocaustos terríveis. Tal é o poder do símbolo.

Na minha forma de representação parto de elementos que, em primeira analise, ganham um aspecto realista, certas vezes naturalistas. Não se confunda esse ponto de partida com um hiper-realismo, forma aprisionada na obsessão pelo referente real e a sua simulação. Nunca pretendi que a minha técnica atingisse tais primores. Procuro, então, pensar e repensar histórias e questões figurando-as, reencenando-as. Ao dar corpo as ideias elas ganham uma dimensão do real, simultaneamente abrindo-se nas possibilidades interpretativas próprias da representação simbólica. A materialização pode ser, por alguns, identificada como uma queda do universo ideal. Eu digo que é uma passagem enriquecedora, uma experiência de comple­xificação, de exploração de inúmeras forças antagónicas, já que o mito e o símbolo encerram sempre, tal como a nossa existência, profundas contradições, em teoria inconciliáveis, mas que a vida demonstra serem coexistentes. A minha insistência na figuração pretende trazer a reflexão a um plano humano, reconhecendo-o como palco de representações eternas. E, como sabemos, não há duas representações idênticas.

Interrogo-me sobre o facto de a crítica normalmente me opôr as estéticas abstraccionista, conceptualista, vanguardista. Não compreendo como se pode incorrer em tamanho erro. A minha pintura figurativa nunca tomaria corpo se não possuísse um esqueleto conceptual. 0 que persigo são ideias e conceitos, embora materializados. Sem essa alma a pintura figurativa não tem interesse absolutamente nenhum; redunda num simples formalismo, um virtuosismo de execução sem conteúdo intelectual. Muita pintura abstracta, por exemplo, ao viver apenas de efeitos de forma e percepção esta a incorrer no mesmo erro: não tem conteúdo simbólico, apresenta um discurso sem mensagem. Aí se esvaziou a arte e se vulgarizou, a meu ver, um erro profundo: retirou-se a arte a sua função mais nobre – apresentar as formas sugestivas das Ideias Estéticas. Sobre este pressuposto “espiritual” eu procuro desenvolver um corpo material em constante dialética com a sua contrapartida. A mente humana precisa de utilizar não só a Razão mas também os sentidos para intuir uma imagem mais abrangente das questões. E não se pode limitar a desfrutar de impressões brutas fornecidas pelos sentidos: ela tem de reconhecer uma mensagem, uma ordem nas coisas, uma história. 0 espírito tem de contemplar a diversidade da materialização e integrar o seu sentido metafísico.

Sinto-me irremediavelmente característico do meu tempo. A minha técnica não tem a grandeza dos clássicos; não fui formado por uma academia desde os doze anos de idade. Sou forçado a ser contemporâneo. Decisivo é o facto de não acreditar que as formas de expressão se tenham esgotado; muito menos que se tenham esgotado os temas e os símbolos que perseguem a humanidade desde tempos imemoriais. Embora tenhamos conquistado alguns factos absolutos, as preocupações que nos atormentam são actualizações de problemas eternos. 0 “avanço da civilização” ocidental pode apenas complexificar os nossos discursos, nunca irá anular paradoxos inerentes a própria existência humana. Neste cenário de fronteiras ténues a figuração na arte adquire o potencial quase mágico do teatro, da ” representação”. Cria uma zona intermédia onde o jogo entre o sentido e a forma se torna pungente: traz a corpo as ideias, obrigando-as a uma materialização engrandecedora; simultaneamente abstrai e intelectualiza o mundo que nos rodeia na dose suficiente para nos conseguirmos identificar com os papeis que sabemos nos estarem atribuídos algures…

Barahona Possollo

Lisboa, Novembro de 1999

 

VANITAS

Vanitas vanitatum. Omnia vanitas… Vaidade das Vaidades, tudo não passa de Vaidade! Assim proclama 0 Livro, num aviso aos presentes (e aos vindouros) que tanto se apegam a efémera beleza das coisas e do mundo. Mas não será a Arte o único modo de resgatar essa beleza da precaridade da existência e de a projectar nessa espécie de sem-tempo que é todo o tempo do mundo?

Tal parece ser o fundamento do projecto plástico de Barahona Possollo que acompanhamos desde a sua primeira exposição individual, realizada precisamente em Setúbal, há um punhado de anos, auspiciosamente intitulada “Regresso a Iconografia”. Vieram depois outros regressos – ao Egipto, ao Sublime – que foram outras tantas re-invenções (porque não há regresso que não seja reinvenção), de tudo ficando sedimentado no percurso do artista aquela porção de estritamente necessário que é a mais-valia do próprio discurso no seu absoluto esplendor.

Em todas as telas de Barahona Possollo, e nomeadamente no conjunto que agora se expõe (…), há uma obsessiva procura de perfeição, tanto ao nível da execução como do refinamento temático, cruzando referências processuais e simbólicas, embora sejam evidentes a sua fascinação pela estética da luz do Barroco ou o seu renovado interesse pela Egiptomania.

Esses dois valores referenciais revelam, principalmente, a outra faceta do seu projecto plástico, ou seja, a intenção de realizar a síntese do que se revela a primeira vista irreconciliável: o intenso naturalismo dos “instantes suspensos de vida” (designação originária das naturezas mortas do Barroco, aqui tão presentes) e o máximo artificialismo formal e simbólico (emprestado das sucessivas imagens feitas do e sobre o Antigo Egipto). Um tal empreendimento dir-se-ia quase impossível, não fosse o talento de Barahona Possollo lograr não apenas integrar corpos e rostos tomados do natural (e portanto claras marcas do presente) em cenários carregados da retórica de pretéritos modos, mas sobretudo metaforizar o excesso de informação que nos submerge neste final de milénio em composições que combinam magistral­mente a serenidade algo devoradora da visão intelectual e culta com o pathos sensual da sugestão e do desejo.

Fernando António Baptista Pereira
Novembro de 1999