Pintura

…”Embala a minha dor pela Visão e o Verbo.”…

K. Kavafis, Melancolia de Jasão(1)

Porque lhes quebrámos as estátuas,

Porque os expulsámos dos seus templos,

Não morreram, não, os deuses.

A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,

E em suas almas sempre te recordam.

Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,

Passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;

E às vezes uma etérea forma juvenil,

Indefinida, em trânsito subtil,

Teus montes sobrevôa.

Konstantinos Kavafis, Canção da Jónia(2)

Intemporal é a luz do Mar do Meio; a luz que unifica os nossos mitos e convoca, de todas as suas margens, os deuses que ela ora ilumina, ora obscurece.

Através de Cronos – o Tempo, (literalmente atravessando o seu corpo), os seus Olímpicos filhos remeterão os Titãs dos primórdios ao exílio da mais escura sombra. Eles, durante séculos exaltados pela branca luz do mármore, cantados pela palavra de poetas e dramaturgos, servidos pela própria invenção do Belo, cairão, por sua vez, na invisibilidade da treva, depostos por um outro Deus maior, que da costa levantina de seu mar, onde outrora foram louvados Baal e Adónis, se fará senhor do mundo. Mas no sul não fora já corrompido, logo esquecido, o panteão do Nilo, esse dos imperecíveis gigantes de granito e pórfiro, ofuscado pelo lume que na margem norte do mesmo Mar surgira?

É a intemporalidade da luz que Barahona Possollo convoca em suas telas. Ele sabe que só ela, vendando e desvendando o signo, cria e destrói. Os deuses, os mitos, os significados são eternos. É do lado do significante que tudo se joga; são as imagens que nos interpelam e que, cifrando ou decifrando, nos encaminham na busca do entendimento. E é a forma plástica usada pelo pintor que determina a função semântica. Mas outros códigos, (a palavra escrita, hebraica ou helénica, o hieroglifo egípcio), que primeiro foram usados, precisamente na cifragem desses mitos, e a eles estarão para sempre unidos, são inteligentemente usados pelo pintor.

A riqueza cromática e essa magistral utilização da luz que a sua técnica permite e que primeiro nos movem na sua observação, não devem, aliás, secundarizar a erudita pesquisa e subtil utilização dos símbolos de várias proveniências culturais que estas telas contêm.

Em Barahona Possollo, a História não acabou com a aparente aceleração do tempo, a Filosofia não se dissolveu em Tecnologia e Ciência, nem a Mitologia se perdeu com a Arcádia, porque, ao constatar que estamos aqui e que nos projectamos em imagens reconhecíveis e nos representamos em sistemas simbólicos, o pintor sabe que não se fecharam, nem se fecharão, as grandes questões ontológicas porque elas são o nosso próprio fundamento.

Suprema demonstração disso, chave, talvez, para a decifração desta exposição, é Nuda Veritas, a nua verdade do próprio artista, que nos obriga a revermo-nos na sua imagem e nos despe com a sua nudez, transformando o observador em observado através da belíssima artimanha de ilusão de revelação que é o “speculum”. Na imperativa participação do espectador neste quadro interactivo, na sua permanente recriação, reside a sua força demiúrgica. Mas a escolha criteriosa dos símbolos que o preenchem, chama para a tela a dialética do percurso do Homem, fornecendo a quem nela se revê sinais que o ajudarão a orientar-se no seu caminho, depois de se interpelar a si mesmo. As duas colunas são as do Templo de Salomão: Rigor e Misericórdia. Os dois castiçais suportam duas sabedorias complementares. No friso estendem-se, à direita, sobre fundo verde da sabedoria, ramos de oliveira, sinal mediterrânico da paz iluminada e cujo fruto concede o óleo sagrado que permite a própria luz; e à esquerda, sobre o vermelho da saúde e fervor, ramos de carvalho que significam a força e a energia geradora. As duas cores são intercomutáveis e complementares, dentro da liberdade semântica própria dos símbolos. A figura do pintor está em posição frontal, como que barrando a passagem ao observador, não lhe permitindo que prossiga sem antes se contemplar, em forçoso “cognosce te ipsum”, no espelho de formato octogonal do encontro do círculo celeste com o quadrado terrestre. Tal como os sacerdotes egípcios ao iniciarem o serviço no templo, a imagem surge completamente depilada, purificada, despida de todos os artifícios de superficialidade. O título da pintura está escrito a ouro, símbolo de eternidade, mas invertido, para que suscite a pergunta: de que lado do espelho estamos nós, afinal…

Em Cronos no Exílio, o senhor do Tempo que implacavelmente nos cria e extingue, o antigo deus, destronado por seus filhos, surge-nos encerrado num espaço ambíguo e temporalmente indefinido. Numa pausa na sua escrita olha-nos transfixo, pesadamente pensativo e alheio ao fogo que vai consumindo o seu manuscrito. Diante de si, suspensa numa fita vermelha está a foice com que ele próprio, como em inexorável cadeia sequencial, cometera o hediondo crime contra Urano, seu pai. Aos pés, envolta num pano, tem a pedra que Rea, mãe dos seus filhos, o faz engolir em vez de Zeus, artimanha que permitirá o advento da teogonia Olímpica. Reflexão sobre a génese da divindade e do devir temporal, este Cronos(cujos atributos o latino Saturno em grande parte incorporou) constitui, também, uma potente alegoria sobre a precaridade do poder.

Exemplo quase irónico da astúcia feminina no Génesis, Tamara olha-nos de soslaio, com uma inteligência fluida, que rapidamente contornará a tradicional supremacia masculina na ancestral ânsia judaica de continuidade de linhagem, e apenas aparentemente impudica na pose ousada com que seduziu o sogro. Desiludida pela morte extemporânea de dois maridos sucessivos, urdiu um plano heterodoxo para corrigir o erro daquele ao não aplicar a lei. O pintor coloca-a num ambiente claramente médio-oriental, rodeada de ricos tapetes. As frases hebraicas que a emolduram são as do próprio Génesis. Também Tamara reflecte sobre o poder, desta feita em relação à sua aparência.

Em Rabi, evocando a importância e a emanência da palavra na tradição hebraica, o pintor remete-nos para a revelação através do verbo. A verdade do Livro é a palavra de Iavé cujo constante murmúrio, como nos diz o primeiro salmo, gravado na moldura, distinguirá pela opção consciente da justa via, o crente do ímpio. O sacerdote transporta a palavra da Luz para as Trevas, traz ao mundo a luz de Deus que, iluminando o caminho do Homem, lhe possibilita a escolha.

Esta escolha da justa via, imbuída da sabedoria que permitirá o reconhecimento dos sinais do Bem, da volição divina, crucial na progressão humana, aparece-nos mais claramente ainda em Os Dois Caminhos, em que uma estátua do deus Osíris, regente do mundo dos mortos, típica da arquitectura funerária egípcia da XIX dinastia, se depara ao viajante em pose de juíz e o obriga a decidir o seu destino: para o Bem ou para o Mal.

Atena e Asclépio é outro episódio de iluminação divina. Atena, guerreira da sabedoria e da razão, paladina do Homem, aqui visível por ter retirado o capacete que lhe dava a invisibilidade, confere a Asclépio o poder da cura, oferecendo-lhe o sangue da Medusa decapitada por Jasão. Asclépio, filho de Apolo, deus da saúde, e de uma mortal, educado pelo centauro Quiron, tornar-se-á , com essa dádiva, um quase-deus, capaz de conferir o dom da vida. No entanto, o alarmado Hades, deus dos mortos, denunciará esta situação transgressora a Zeus, que acabará por matar Asclépio com um raio. Asclépio permaneceu, porém, como protector da saúde humana e dos médicos no mundo helénico – onde tinha local de culto na famosa Epidauro – e, como Esculápio, no latino. Em todas as tradições, a Medicina, com o seu aparente poder de fazer reviver, de ressuscitar, participa de elementos mágicos, exclusivos dos deuses. Barahona Possollo explora os ténues limites entre Ciência e Magia aos olhos dos leigos, representando símbolos da antiga superstição e da moderna Ciência.

O dom da vida, a possibilidade de ressurreição são exclusivamente divinos e marcam o limite intransponível pelo Homem, mesmo se se julga criador de deuses feitos à sua imagem. Ele perecerá e será apenas Ossos secos, ínfima poeira perante o Infinito, esperando que a mão divina um dia o ressuscite, porque essa, só essa, o pode fazer, como nos diz Ezequiel, na frase bíblica inscrita na moldura.

“Persona” suprema da teogonia helénica, feito à imagem do Homem por si feito, Zeus é a divina medida de todas as paixões humanas. Na belíssima representação de Barahona Possollo, propositadamente humanizada e carnal, deparamo-nos com a insatisfação do deus jovem, origem da sua melancolia e motor das suas acções. Como num cenário do seu palco sobre-humano, Zeus melancólico quis-se enquadrado pela batalha dos deuses contra os Titãs, momento da sua supremacia e origem do seu absoluto poder, acentuando, assim, a natureza paradoxal, quase terrena, do seu estado de espírito. A cena da batalha surge tal como no friso do Altar de Pérgamo, exposto em Berlim, conhecida na época helenística como uma das suas mais pungentes representações.

Se o mundo antigo se nos escondeu, se a sua divindade noutra se transmutou, sobraram as marcas das suas pedras, os seus artefactos sob o pó dos dias para nos acordarem para a nossa própria viagem, sempre que precisarmos.

Além das construções quase sobre-humanas que deixaram, os egípcios da Antiguidade voltavam, sucessivamente, a esconder os tesouros dos túmulos profanados (em locais de magia subterrânea como o de La Cachette), teimosamente entregando ao futuro o seu legado.

No branco mármore de Paros, nos calcários da Magna Grécia, (como aqui em Vista de Paestum: Templo de Atena e Vista de Paestum: Templos de Hera e Zeus), os helenos descobriram a longeva resistência da beleza etérea, celebrando os deuses, os heróis e os homens e, para sempre, tocaram com o sublime dos seus templos a paisagem mediterrânica, associando-os às oliveiras, aos pinheiros mansos, às montanhas quase despidas.

Ensinando a sua arte aos conquistadores romanos multiplicaram-na no espaço e no tempo, e difundiram o cânone por todos os seus herdeiros. A sua reflexão sobre o divino encarnado enquanto Belo nas várias idades do Homem idealizado, que simbolizam, por oposição, a própria perda do estado primordial e a queda no humano, permanece até hoje, por via desse legado, presente na Arte Ocidental. É tratada em O Panteãocom enorme mestria por Barahona Possollo, mediatizada pelo próprio mármore reesculpido pelo tempo e pelo abandono de uma velha vereda de jardim romano. É ainda mais marcante na sua sobrevivência “malgré tout”.

Parece, às vezes, que os escultores do tempo, os antigos sábios previam a voragem das eras e nos quiseram garantir a perenidade dos seus sinais.

Talvez fosse intervenção dos deuses.

Pedro Arouce, Abril de 2003

(1) Constantin Cavafy, excerto de “Melancolia de Jasão, filho de Cleandro, Poeta na Síria Comagena, 595 d.C.”, 90 e Mais Quatro Poemas, versão portuguesa de Jorge de Sena, Centelha, Coimbra 1986

2) Constantin Cavafy, “Canção da Jónia”, ibidem.