Regresso ao Sublime
A ARTE SEM IDADE DE BARAHONA POSSOLLO
O preconceito corrói a alma humana. O“politicamente correcto” de hoje não passa, finalmente, do desfraldar duma hipocrisia assumida, mais ou menos WASP, e que tenta finalmente estabelecer em nome do Bem o que sem sucesso histórico a Inquisição tentou durante trezentos anos. Anteriormente, a ditadura das modas, que foram em Arte os Movimentos ou Escolas, provinha dum desígnio de mudança ligado a factores políticos, religiosos ou sociais. É obscura a câmara onde se engendram tais anseios. A reacção contra o Academismo, estabelecido já antes do Impressionismo, fizera-se com Géricault e Delacroix, tal como David inscrevera uma mudança sobre os academismos de Itália. Oséculo XX exacerbou as ditaduras do pensamento, tragicamente na História, dramaticamente na Estética. Se os anos 10 e 20 foram ainda atitudes contra o bom comportamento académico, já os movimentos posteriores impediram a figuração em pleno reinado abstraccionista levando-a à rejeição, como o lamentou Eduardo Luiz, ou decidindo-a politicamente com o Surrealismo, ou com informalismos, gestualismos, minimalismos, desacreditando o que o não fosse. As últimas duas décadas ergueram as fronteiras dos conceptualismos. E a “critica”, sob o mau exemplo que associou este exercício à defesa de um grupo, ao imiscuir-se com os “seus” artistas, cedo criou uma promiscuidade que se concertou com jornais, partidos, grupos financeiros. Aquilo que hoje se chama “crise de vendas” tem quase tudo a ver com isto.
E isto para se dizer como a preciso ser corajoso, e honesto, e assim o é Barahona Possollo, para que contra ventos e marés, ou seja, contra a actual ditadura do “pensamento” conceptualista, se atreva a mergulhar as raízes da sua pintura na fractura delimitada, basicamente, pelo Seicentos e o Maneirismo. Em tempos de “bad painting” é escandaloso pintar bem, o que seja, sentir a tridimensionalidade do espaço, e projectar nele com correcção as figuras. Servindo-se das cores não já iconograficamente mas por relação com as formas, sentir a linha do desenho, saber a tonalidade certa duma cor na sua variação luminosa. É assim que Barahona Possollo exerce a sua pintura. A miopia, que é em óptica o que em moral corresponde ao preconceito, pretenderá, perante os factos que são as telas deste pintor, desculpar-se com a noção do “já visto, já feito, já velho”. Oconceito de vanguarda foi a tradução em Arte do de Revolução. Mas as revoluções duram pouco e o seu prolongamento artificial origina precisamente o híbrido conservantista do poder conquistado.
E claro que o retrazimento duma expressão que encontre semelhanças aparentes entre, por exemplo, uma Flagelação, de Caravaggio (1570-1610) e o Prometeu, presente nesta Exposição, ou até mesmo o São Sebastião, deSchedoni, de 1610, tem de admitir o que a Barahona Possollo foi dado conhecer e ver dessa época para cá: os comportamentos deste“bouillon de culture” europeu nos séculos XVIII e XIX, sem se esquecer, com o XX, a evolução da fotografia, o cinema, os sinais publicitários, o “design” industrial, as arquitecturas. E o artista actual que por emoção e razão se prenda a um século XVII, fazendo desse “pensamento” uma floração espiritual, sabe com certeza e bem que não só não poderá repetir o inapreensível “ar do tempo” desse “tempo perdido” e jamais reencontrável, porque as épocas tem sinais íntimos e inconscientes que de todo se eximem a uma descriptação posterior, como ainda, ao contrário dos falsários que pretendem imitar um pintor na sua “maniera”, sabe também que a fotografia lhe deu uma diferente composição, que a sua perspectiva muito terá, com certeza, a ver com técnicas cinematográficas. Oquadro Santo Estêvão, de Barahona Possollo, é concebido numa perspectiva de “plongé”, e do cinema há uma sensação de “travelling” no movimento de Santa Catarina, muito mais afim que o movimento que poderia aparentar, por exemplo, no drapejamento da figura de S. Jorge e o Dragão, de Tintoretto (1555), ou na Diana Caçadora de Gentileschi (1563-1639) que traduzem as duas aquela qualquer coisa que não no-las toma familiares. Odrapejamento, o gesto e o movimento da primeira, consagram um sentido de cone e uma estética em que o poder éespectáculo, e Gentileschi afina-se por uma epifania dos “tempos” que dominaram a Terra: a agitação dos panos é conforme com o que mais tarde se designou por sublime, ao tentar-se traduzir um sentimento perdido. A Santa Catarina de Possollo recria a virtualidade da “aparição” no movimento ondulatório do manto, no arabesco da filactera, num contra-luz de cabeleira de quem já viu La Tour, quiçá nessa agitação do manto e na certeza do olhar o gesto mil vezes repetido duma Monroe sobre a grelha do Metro. Não que esta Santa Catarina assim se profanize, mas que não esta no intuito do pintor exercer a tabuada mística da santidade, cavar as diferenças com o sobrenatural, antes, aceder a aspectos formais que se conformam com uma naturalidade que cem anos de cinema apaziguaram.
De resto a titulação “Regresso ao Sublime” deste conjunto de pinturas e de desenhos, ao apelar para um tempo do Sagrado em temos de ordenação duma sociedade europeia ainda teocrática, embora já um pouco blasfematória, onde a mestria da Arte se sobrepõe a manifestação do milagre, e onde o Barroco se dissolve nas apologias alegóricas dos carros triunfais transportando a hesitação das figuras entre a santidade crista e a divindade absolutista, esbarra ela, nesse regresso, que em meu entender o não é, nem de revivalismos se trata, antes de assunção criadora, com a temática da própria exposição: uma emergência de pretextos bíblicos como em Judite e Susana, em invocações clássicas, como na figura de Prometeu, ou ainda na chamada da Antiguidade concretizada no Egipto, cosmogonia e mitologia desde a infância tão caras a Barahona Possollo que aqui as retraz nos dois trabalhos Lâmpada, e ainda nesta extraordinária recriação dum Lázaro de cujas faixas esvoaçantes se desembaraça, azul cadavérico a tomar-se de rosa sanguíneo e todo ele muito mais egipcíaco e faraónico que judaico, a rigidez cadavérica regressante a uma flacidez que a carne toma no período que sucede à paragem do coração.
Milagre assim parece esta tela, mais pelo mérito do pintor que pela recriação da lenda.
Das figuras bíblicas invocadas, mais do que evocadas, é imprescindível a paragem diante desta Susana século XX, “plano fixo” com uma “câmara” colocada à altura preferida de um Ozu, com uma textura muscular mais tensa que a Bethsabé no Banho, de Rembrandt (1654), inesquecível confissão de amor do Mestre Holandês por sua Mulher, onde uma forma de naturalismo prenuncia algum expressionismo, e onde por associação de imagens ainda a verdade sentida de Susana e os Velhos, inultrapassável na surpresa da sua intimidade, se nos associa esta Susana onde também não se foge a um corpo que anuncia nos seus redondos maternidades futuras, a imersão dos pés contrapontua com o fulgor do Sol, e os gestos baléticos do penteado se transfiguram em introspecção. Igualmente aqui a incidência da luz passa pelo fotograma.
Este percurso que apreende indistintamente o Pentateuco e o Nilo, ou os mitologemas de um cristianismo que inunda as épocas de sangue violado e derramado, e assim de toda a violencia ocidental, encontra uma apóstrofe no proto-diácono Estevão, que morreu a dormir se bem que apedrejado, onde servem de arremesso as armas da própria igreja (báculo e hissope). E se a languidez da pose tem algum maneirismo do Cristo de Carraccio da sua Virgem chorando o Filho (1605), já em Possollo mais se incrusta uma sublimação de amor profano que a carne martirizada e bela do Messias.
Do todo, para lembrar os quatro desenhos das descobertas (Naufrágio, Sião, Castelo e Guiné), o virtuosismo do Autor situando aquilo que se relaciona com os Desastres da Guerra, sem o escorço vigoroso e panfletário de Goya, mas sublimando aportuguesa melancolia dos impérios perdidos e desfeitos. Ou ainda a actualidade dos temas postos também em carvão, Prenda de Natal, O Chá e Debaixo da cama, onde Freudé chamado a depôr: emoção, mistério, beleza indefinível, três objectos que resguardo para sempre em memória.
Do todo, apenas para lembrar – que a conquista da liberdade não é a ditadura da vanguarda. Que o talento é, como disse Vieira da Silva, do Espírito Santo: sopra onde quer e quando quer. Que esta pintura incomoda a mediocridade, mas aqui lembro de memória uma carta de Eduardo Luiz: difícil não a fazer algo de novo, mas tentar perceber o que há de comum entre uma escultura de Tebas, um vaso de Delfos e um quadro de Picasso. Acho que é isto também o que Barahona Possollo quer dizer.
Jorge Guimarães
REGRESSO AO SUBLIME
A mais antiga formalização do sublime que chegou ate nos encontra-se num tratado helenístico an6nimo, atribuído a um Pseudo-Longino, escrito provavelmente no limiar da nossa era e dedicado a um nobre romano, que tern por titulo Peri Hypsous. Apesar de conhecida na Baixa Idade Media, e de ter sido editada em Basileia, em 1554, em tradução que não suscitou interesse, quer pelas suas imperfeições, quer por problemas mais gerais de recepcao, a obra só viria a desempenhar um papel paradigmático junto das elites culturais europeias a partir de 1674, quando Boileau a publica como apêndice da sua Art Poétique, intitulando-a “Du Sublime”.
O Tratado do Sublime do Pseudo-Longino apresenta-se como uma epistola, dirigida a Terenciano, incluindo, ao longo dos seus vários capítulos, uma compilação de numerosos exemplos comentados da literatura grega antiga. 0 texto informa-nos acerca de tentativas anteriores para a caracterização do conceito de sublime, consideradas insuficientes por não desenvolverem convenientemente a matéria, situação que a obra se propõe ultrapassar.
A definição que o Pseudo-Longino faz do sublime, apesar de predominantemente retórica, não se limita aos mecanismos de elevação formal do estilo, mas insiste numa condição de transcendência que justifica o reconhecimento do arrebatamento pelo ouvinte: “O verdadeiro Grande Sublime é aquele cuja admiração nos tem por muito tempo suspenso o animo: sendo difícil, ou para melhor dizer, impossível o resistir-lhe por se conservar firme e indelével na nossa memória”(’). De resto, a natureza valorativa e emocional do conceito de sublime, nesta sua primeira formalização conhecida, a devidamente precisada pelo autor: “Porque a nossa alma naturalmente se eleva em certo modo com o Sublime verdadeiro; e, concebendo um nobre e soberbo ardor se enche de grande alegria e jactância, como se ela mesmo houvera produzido o que ouviu”(2).
Na definição das condições de sublimidade, o Pseudo-Longino considera, em primeiro lugar, a capacidade de conceber pensamentos elevados e, em segundo lugar, uma riqueza espiritual inspirada em sentimentos de nobreza e grandeza de alma: “uma certa elevação do espírito, que nos faz pensar com abundância e felicidade… o afecto veemente e cheio de entusiasmo”. Finalmente, três outras condições que “se adquirem pela arte”: “uma certa disposição das figuras”, “a frase nobre” e “a composição em toda a sua dignidade e elevação”(3). Não deixa de ser curioso assinalar que, nesta formulação, o Pseudo-Longino se mostra claramente subsidiário, por um lado, das concepções platónicas sobre a origem divina da criação artística e, por outro, dos princípios retóricos da poética aristotélica, num efeito de síntese precária, que marcará certa posteridade do conceito, conciliando raptus e ars, ou seja, a criação concebida como inspiração divina e a poética entendida como resultado de um trabalho eminentemente retórico sobre materiais.
Ao contrario das Poéticas de Aristóteles e de Horácio, o Tratado do Pseudo-Longino permaneceu, como ja dissemos, quase esquecido ate a sua reabilitação por Boileau, servindo, a partir de então, os objectivos da reforma neoclássica das letras e das artes, embora, mais tarde, tenha proporcionado a própria superação do neoclassicismo pelo romantismo(4).
Contudo, o aparente desaproveitamento da obra durante um tão largo intervalo de tempo não impediu o reconhecimento da operacionalidade e vigência do que poderíamos chamar de sensibilidade ao sublime, independentemente da sua formulação no Tratado e nas obras que teoricamente nele se inspiraram. Por exemplo, a equivalência entre o termo grego hypsous (elevado) e o termo latino sublime (suspenso no ar, elevado) e a respectiva abrangência retórica permitem admitir dentro da categoria o chamado grande estilo ou mesmo o estilo grave que as Pontes da retórica antiga, medieval e renascentista reconheciam na poesia épica e na tragédia da Antiguidade. De resto, tanto na época em que o Pseudo-Longino escrevia, como no período posterior à publicação da tradução do texto por Boileau, a unanimidade quanto à definição de sublime foi praticamente impossível: o Pseudo-Longino critica um seu antecessor por não diferenciar o Patético (as emoções, os afectos) do Sublime, sendo certo para o autor que as duas categorias podem ou não coincidir, embora acabe por reconhecer que “nada faz mais sublime a oração do que um afecto nobre, onde é próprio, o qual parece como uma inspiração e furor divino, e em certo modo a enche de divindade”(5).
No século XVIII, até a nova formalização proposta por Kant, opunham-se os que, como Silvain, não admitiam assimilar o Sublime ao Patético ou tomá-lo pela “grandeza ordinária do discurso”(6), explicando o Sublime em função de algo infinito(7), e os que, como E. Burke, identificam o Sublime com uma sensação de terror deleitável que se apodera da alma e que não pode surgir do prazer da contemplação da beleza, pois esta produz acalmia e apaziguamento(8). Parece claro que esta concepção, que nega a arte a capacidade de traduzir ou comportar o sublime, deriva de hábitos visuais viciados no academismo neoclassicisante, que encarava o sublime apenas dentro de esquemas de perfeição retórica.
A generalização e abuso da categoria, ao longo de todo o s6culo XVIII, vai responder Kant com uma analítica do sublime que, apesar de excluir a arte, terá uma influencia decisiva na estética do sublime do Romantismo e, por via dela, nos debates sobre a pós-modernidade.
INVENÇÃO DO SUBLIME
OU INVENCAO DO ESPECTADOR?
O sublime não se pode definir em termos puramente formais, uma vez que faz parte do foro das emoções e, como tal, esta inevitavelmente contaminado pelo universo sentimental do observador, culturalmente determinado ou programado para o sentir desse modo ou não. Sem a categoria de espectador é impossível conceber a apreensão experiencial dessa dimensão. Em suma, a isto: sente-se ou não se sente perante uma obra de arte essa categoria da experiência estética que se designa, desde a Antiguidade, por hypsos (elevação) e que a posteridade latina rebaptizou de sublime.
Sendo o sublime um valor e, por consequência, da ordem das emoções, não será, então, a forma mais depurada, quase primordial, talvez mesmo instaurativa da experiência estética, ou melhor, da própria tomada de consciência do fruidor? É pelo menos isso naquilo que se designa por começo dessa tomada de consciência e provavelmente em todas as épocas em que o desejo de instaurar uma experiência estética catártica do eu-que-observa se confunde com a procura de um contacto íntimo com o absoluto através ou por mediação da Arte enquanto instancia inexoravelmente humana mas potencialmente transcendente.
Há, pois, uma constante na vivência do sublime, qualquer que seja a época considerada: por um lado, a arte assume-se como facto humano, terreno, feito para os homens, de e para a cidade dos homens, e, por outro lado, ela não é mais do que um veiculo privilegiado para a grande experiência de abandono do sujeito ao objecto na procura do absoluto, ou seja, ela não é mais do que uma ascese do eu a algo que o transcende e a própria Arte mas que só pode ser intuído ou atingido por essa “língua do sentimento” (Carus)(9) que é a própria Arte.
Consciência de um ponto de partida humano, não transcendental, puramente imanente – no que isto tem de negação de uma instancia mágico-religiosa e dominantemente ritual e ritualizada – mas também certeza de que a arte se não é apenas suporte da existência que se projecta no além também se não reduz a auto-referência, a veículo da aparição do absoluto ao homem, ou melhor, é a própria possibilidade de aparição do absoluto no homem por um acto consciente do ser-que-vê e se abandona ao objecto contemplado para que o absoluto nele aconteça (ou essa impressão de absoluto nele aconteça).
Por isso, a categoria do sublime é inseparável da invenção do espectador, fen6meno que liberta a arte do servilismo perante o Alam pondo-a ao serviço do Homem na sua procura do Absoluto, na sua procura da verdade, na sua procura das origens (Heidegger identifica a origem de uma coisa, de uma cultura, com a sua verdade, com a origem da própria Obra de Arte) (10)
Com a invenção do espectador, a obra de arte sabe-se humana ou melhor, signo da cultura humana, dirigindo-se a nos, categoria nova, instauradora de uma nova relação, talvez mesmo de uma nova dependência. Mas, ao proporcionar diferentes ângulos de visto, consoante a posição do observador, ela dá-se a ler de diferentes e infinitas maneiras, libertando-se do tempo que a viu nascer e abrindo-se as sucessivas leituras que se vão dela fazendo. Por alguma razão se disse neste século que quem faz a obra é o espectador.
Os gregos do tempo de Péricles inventaram o sublime como compensação para a perda do sentido mágico-divino da arte, presente desde a Pré-História e especialmente no Egipto Antigo, tendo, no mesmo movimento, inventado a categoria de observador, para quem a obra de arte se apresenta doravante como inexoravelmente terrena, mas sublime!
Desde então, de tempos a tempos, a Humanidade tem de renovar a vivência reparadora do sublime, após cada “morte” da arte, de acordo com as exigências culturais de sobrevivência da experiência estética por que cada época clama.
Como num ciclo da Paixão e num exercício de recapitulação histórica, poderão seguir-se as múltiplas estações de formulação do sublime, tentando captar o que as une, não enquanto invariantes, mas como demanda da transcendência e explicitação da relação espectador-obra.
POR UM NOVO SUBLIME
Nos nossos dias, a emergência de um sublime resgatador das estéticas do reducionismo e do puro efeito gratuito – em suma, dos últimos estertores da concepção auto-referencial e autofágica da arte – tem sido ensaiada, com maior ou menor eficácia, por diversas experiencias artísticas. Penso, todavia, que ainda se não pôs o dedo na ferida: há que negar a negação do sublime e para isso é preciso uma nova vontade de regressar.
Não há regressos em arte. Sempre que se quis regressar, deu-se um salto no desconhecido e inventou-se o que ainda não tinha sido visto. Assim aconteceu no Renascimento, com o Neoclassicismo, no Romantismo ou com o Modernismo, tudo dependendo do modelo de referenda e da vontade artística, claro…
Ao fim de décadas de reducionismos vários, que foram incapazes de nos devolver o prazer de ver, ou mesmo de contemplar, para não falar do prazer de decifrar ou mesmo do prazer de fazer, impunha-se uma nova vontade de regresso a uma concepção de pintura como sintese e não como resíduo, mera autoreferência ou puro efeito gratuito.
As visões eminentemente analíticas, que endeusaram o primado de uma picturalidade dissecada nos seus invariantes mínimos – vera efígie de uma morte da arte enquanto cirurgia (ou pura imitação?) do fazer pictórico respondem, com cada vez maior frequência, indícios de uma insatisfação perante tais academismos do tardo-modernismo, que a recente crise do mercado da arte veio tornar gritantemente patentes.
Urge restaurar a pintura como narratividade, não dos seus próprios processos, mecanismos e fantasias, mas das circunstancias em que a pintura aparece como facto cultural que indiscutivelmente é. E não basta restaurar a figura enquanto signo de uma qualquer desconstrução analítica da imagem, mas reinventar a história no interior da própria pintura entendida como nova síntese da experiência-com-o-mundo.
Tudo isso só se tornará possível com o regresso a iconografia, estádio formativo da imagem indispensável ao seu funcionamento enquanto instancia comunicativa de múltiplas alteridades – funcionalidade que a imagem cinematográfica e a videográfica conservam na sua dimensão especifica mas que a imagem pictórica praticamente perdeu. Essa perda, curiosamente, arrastou outras falhas significativas ao nível do rigor da execução (técnica e imagética) numa direcção dissolvente que é necessário inverter. Restaurar a iconografia será, também, restaurar o rigor do desenho e sobretudo o prazer e a excelência da execução, se se quiser, da oficina, devolvendo ao espectador o gosto pela contemplação e o habito da decifração da imagem.
E escusado pensar que a imagem pictórica pode concorrer com o fotograma, com o videograma ou com quaisquer outras formas de imagem em movimento. Reduzi-la a algo que se capta rapidamente num relance, passeando por uma qualquer galeria, é um notório empobrecimento das potencialidades do seu criador e dela própria enquanto obra de arte perante o espectador.
Hoje, como ontem e sempre, a missão mais revolucionária da arte – e, na ocorrência, da pintura – e contrariar maus hábitos instalados (por exemplo, o vicio consumista da imagem em turbilhão, a incapacidade de ver/ler a imagem fixa) e questionar a capacidade de ver de uma dada cultura. Restaurar o gosto de ver e principalmente a satisfação do fazer (quer ele seja executar ou simplesmente decifrar-ler) é um imperativo desta nova idade da circunstância. Para que o sublime volte a ser possível.
A PINTURA DE BARAHONA POSSOLLO E O REGRESSO AO SUBLIME
A exposição que Barahona Possollo apresenta na Casa do Corpo Santo é, sem qualquer sombra de dúvida, um desses fortes indícios de uma nova atitude perante a imagem artística e o seu modus operandi. Já em Dezembro de 1992, com uma provocatória proposta de Regresso a Iconografia, então na Casa de Bocage, o pintor iniciava um percurso “diferente”, que, na contra-corrente das estéticas do “reducionismo”, apostava mais na pintura enquanto comunicação de alteridades do que na pura imitação do fazer pictórico.
A escolha de um cenário “forte” – as salas barrocas da Casa do Corpo Santo (antiga sede de uma confraria de mareantes, que tinha como santo patrono São Pedro Gonçalves ou Santelmo ou, ainda, Corpo Santo) – não serve os desejos de intervenção contrapontística, como seria de esperar num artista do tempo que passa. Pelo contrário, há como que uma procurada convivência harmónica com a arte do passado e, no caso, com um conjunto de intervenções de grande exuberância, marcado pelo dialogo entre a azulejaria, a talha e os tectos pintados, um deles em trompe l’oeil, deixando, apenas, de fora algum espaço branco nas paredes, sobre o qual se expõem telas e desenhos. Há, também, um sentido de instalação iconográfica na distribuição dos quadros pelas paredes das salas, quadros esses que, numa linguagem que fala inequivocamente uma língua de hoje (e do futuro), exploram subtilmente os mecanismos de uma retórica da perfeição e do sublime que também habita as paredes históricas da Casa.
Como não poderia deixar de ser num filho dilecto de uma geração que já foi formada pela condição pós-moderna, a pintura apresentada exerce um deliberado efeito de choque sobre os maus hábitos visuais instalados nos consumidores de exposições. Esclareça-se que não movem o pintor os propósitos desconstrutivistas tão “late-modern” da redução da imagem aos seus invariantes constitutivos, a sua própria negação em nome da exaltação da sua materialidade, ou a pura abjecção, sintomáticas variantes do contemporâneo contemptus mundi ou desprezo do mundo. O choque que a instalação iconográfica de Barahona Possollo pretende instaurar – e daí o regresso ao sublime, estádio de aprofundamento de uma estratégia de reconstrução da imagem artística – visa (tão somente!) esse imperativo da consciência e da prática artísticas que a redimir a arte enquanto comunicação e também enquanto epifania do absoluto. E essa experiência da transcendência que toda a grande Arte algum dia viveu que a pintura de Barahona Possollo pretende revisitar.
FERNANDO ANTONIO BAPTISTA PEREIRA
Setúbal, Dezembro de 1992 – Janeiro de 1995
NOTAS
(1) Tratado do Sublime, Dionisio Longino, tradução de Custódio José de Oliveira, comintrodução e actualização do texto de Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1984, p. 56.
(2) Idem, ibidem.
(3) Idem, ibidem, p.57.
(4) “O sublime harmoniza-se, sob certos aspectos, com alguns dos princípios do classicismo: longe de exigir rebuscamentos e complicações, o sublime nasce, como o próprio Boileau observe na sua décima Reflexion critique sobre Longino, de um estilo simples e natural, assim se conciliando com os ideais de naturalidade a de simplicidade, próprios do classicismo. Todavia, sob outros aspectos, decerto mais relevantes, o sublime constitui um valor que este em contradição com o sistema das teorias do classicismo, tendo indubitavelmente contribuído para a dissolução deste mesmo sistema. Com efeito, e apesar dos esforços de Rapin, de Boileau a de outros autores para demonstrar que o sublime obedece a determinadas “regras misteriosas e ocultas da arte”, o sublime e irredutível á razão e escapa ao código das regras. Defender o sublime equivale a reconhecer na génese, na estrutura e no significado da obra poética um horizonte de liberdade e uma presença de forças desconhecidas da imaginação e do sentimento – o famoso je-ne-sais-quoi de tantos preceptistas do classicismo – que não a possível conciliar com os fundamentos racionalistas da doutrina clássica. Não foi sem motivo justo que modernos como Charles Perrault, Saint-Evremond e Fontenelle, estritos advogados do racionalismo clássico, combateram as teorias do sublime, condenando como obscuridade a confusão o que, nas odes de Píndaro, Boileau exaltava como expressão paradigmática do sublime. E também não foi sem motivo que as teorias de Longino desempenharam uma apreciável influência na estética do pré-romantismo europeu, em especial através de autores como Young e Burke [...].” in Vitor Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, Coimbra, Livraria Almedina, 19928, p.521.
(5) Dionisio Longino, Tratado do Sublime, cit. p 59. A fundamentação filosófica do Tratado do Sublime reside na filosofia platónica do furor ou inspiração divina, tal como surge magistralmente ilustrada na célebre demonstração de Sócrates no diálogo íon: ” Eu vejo, Íon, e vou fazer-te ver o que é, segundo o meu entendimento. É que esse dom que tu tens de falar sobre Homero não é urna arte, como disse ainda agora, mas uma força divina [...], que to move, tal como a pedra a que Euripides chamou de Magnésia e que a maior parte das pessoas chama pedra de Heracleia. Na verdade esta pedra não só atrai os anéis de ferro como também lhes comunica a sua força, de modo que eles podem fazer o que fez a pequena pedra: atrair os outros anéis, de tal modo que é possível ver uma longa cadeia de anéis de ferro ligados uns aos outros. E para todos é dessa pedra que a força deriva. Assim, também a Musa inspira ela própria e, através destes inspirados, forma-se uma cadeia, experimentando outros o entusiasmo. Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos, tal os Coribantes, não dançam senão quando estão fora de si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados a possuídos como as Bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel, mas não quando estão na sua razão, e e assim a alma dos poetas líricos, segundo eles dizem. Com efeito, os poetas dizem-nos, não é verdade, que é em fontes de mel, em certos jardins, a pequenos vales das Musas que eles colhem os versos, para tal como as abelhas, no-los trazerem, esvoaçando com elas. E falam verdade! Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, a não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si a de perder o use da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui: um nos ditirambos, outro nos encómios, outro ainda nos hiporquemas; este na epopeia, aquele no jambo. Nos outros géneros, cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam então falar sobre todos. E se a divindade Ihes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nos que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas tão admiráveis – pois estão fora da sua razão – mas que é a própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles. A melhor prova a este respeito é Tinico de Cálcis, que nunca fez um poema digno de ser recordado, excepto o péan, que todos cantam, talvez o mais belo de todos os poemas líricos, um verdadeiro “achado das Musas”, como ele próprio diz. Parece-me, com efeito, que, com este exemplo, a divindade demonstra-nos de um modo que não deixa dúvidas, que estes belos poemas não são humanos nem são obras de homens mas que são divinos e dos deuses a que os poetas não passam de interpretes dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração. E para demonstrar que a divindade faz, propositadamente, cantar o mais belo poema lírico pela boca do mais mediocre poeta. Não achas que tenho razão, Íon?”, Platao, Íon, Introdução, tradução a notas de Victor Jabouille, Lisboa, Inquérito, 1988.
(6) Dionisio Longino, Tratado do Sublime, cit., p. 120
(7) Cf. Carlos Bizarro Morais, “Sublime” in Logos. Enciclopedia Luso-Brasileira de Filosofia, Lisboa, Verbo, 1992, vol IV, col. 1322.
(8)Idem, ibidem.
(9) Carl Gustav Carus, Cartes e Anotaciones sobre la pintura de paisaje: Diez cartas sobre la pintura de paisaje con dote suplementos y una carte de Goethe a modo de introducción, Madrid, Visor, 1992.
(10) Martin Heidegger, A Origem da Obra de Arte, Lisboa, Edições 70, 1989.